Padre Eduardo sentou-se ao seu lado. Estava cansado. Havia organizado e posto tudo em funcionamento até o final.
Ficou com Padre Nunes até o fim.Ouvira-o em confissão,deu-lhe a unção final e cerrou-lhe os olhs tão pronto este morreu.
Por fim couidou do resto. Celebrou a missa de corpo presente acompanhado dos demais sacerdotes do seminário. Deu a benção sobre o caixão, e seguiu até o sepultamento.
Merecia portanto descansar, disse-lhe o rapaz.
Padtre Eduardo acendendo um cigarro retrucou: - Que nada, servos inuteis é o que somos; e continuou:- O que você queria perguntar?
Mateus se surpreendeu. Como ele sabia que havia uma pergunta de sua parte?
Antes mesmo deste pensamento se completar, Padre Eduardo disse: Teus olhos estão mostrando que aí tem uma pergunta;diga-me portanto o que quer saber.
Teu gesto ao dar a benção sobre o caixão de Padre Nunes,por que os dedos estendidos daquele modo?
Foi a vez de Padre Eduardo se surpreender.
Deu uma última tragada no cigarro apagando-o sob os pés. Soltou a fumaça e esperou um pouco para responder.
Neste intervalo lembrou-se de Nunes e do que este lhe contara.
Antes de confessar-se pediu a Padre Eduardo que acompanhasse Mateus.
Padre Nunes era professor na Filosofia.Ficava encantado quando as aulas despertavam questões entre a classe, gerando discussões entre os alunos.
Félix era um dos alunos que se sobressaia como filósofo em potencial, apoiando-se muitas vezes em São Tomás de Aquino, ainda que Nunes seguisse o pensamento de Javier Zubiri,filósofo espanhol.
Padre Nunes gostava pois sabia que o tomismo ainda era uma boa base para a filosofia,pelo menos para a igreja dizia ;de si para si.
Naquele dia porém o destaque ficou para outro aluno.Mateus, um aluno sempre silencioso porém muito atento, manifestou-se.
Sua colocação causou indignação na classe.
Ao menos dois alunos chamaran-no de irreverente, quando na verdade queriam chamá lo de herege.
Olha a fogueira, gritou um terceiro lá do fundo.
O tema que estavam tratando era a questãqo da vida e da morte.
O que era a morte afinal? Padre Nunes lançara esta pergunta na classe.
Depois de varia colocações e teses, Mateus pediu para falar.
- E se a morte não for o que pensamos?
Diante disto pesou um silencio na classe.Alguém disse:- Estamos falando da morte cristã.
Foi a vez de Padre Nunes intervir: Não, não. Estamos falando da morte.Morte cristã é na outra classe. Na turma da teologia.
Novamente a classe se manifestou.
Silencio, pediu padre Nunes.Mateus, fale-nos sobre sua visão da morte, ou o que voce quer dizer com esta sua colocação.
Padre Eduardo lembrava-se deste episódio enquanto apagava o cigarro.
Realmente este moço é especial, pensou, além do que tem olhos afiados.
Tocando-lhe o ombro disse-lhe:
- Amanhã conversaremos sobre isto.Hoje estou muito cansado.E despediu-se com uma boa noite.
Mateus ficou por ali ainda um pouco olhando o céu que estava estrelado pensando consigo, onde estaria naquele momento Padre Nunes. Sabia que este pensamento contradizia sua formação cristã, pois deveria pensar como os demais que naquele momento padre Nunes estava junto a Deus. No entanto não conseguia pensar assim.
Sabia que Padre Nunes era uma boa pessoa, talvez até santo como muitos chegavam a dizer, pela caridade e amor que ele tinha com todos. Isto não tinha dúvidas. Mas onde estaria ele agora? O que era a morte afinal?
Sentiu-se cansado também e retirou-se para seu quarto.
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Lá fora o céu estrelado deu lugar a grossas nuvens que vindo do leste, desabaram em forte chuva.Mateus puxou as cobertas e adormeceu.
Olhou á sua volta. Estava em um grande salão. Assustou-se. Era um conclave, ou algo parecido, pois á frente de tantos cardeais, um se destacava. Carregava um báculo, e tinha a outra mão sobre o peito com os dedos dobrados do mesmo modo que vira Padre Eduardo dar a benção. Voltou o olhar novamente para aquela figura vestida de branco, e reconheceu nele Padre Nunes. Olhou os demais e estes tinham como que um mesmo rosto. Virou-se em direção á porta por onde entrara, dando um passo para sair, quando tropeçou e caiu.
Acordou assustado, levantando-se do chão. Foi ao banheiro, tomou um pouco de água, e voltou a dormir.